Este artigo apresenta fundamentação acerca da escatologia em torno do livro do Apocalipse que corroboram a visão da Besta como sistema político e ideológico, e do ego espiritualizado como elemento de corrupção do Reino interior.
Apocalipse 13:2
“E vi subir do mar uma besta… e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande autoridade.”
A Besta não é uma figura individual, mas uma estrutura que emerge do inconsciente coletivo (mar) e recebe seu poder do dragão (a energia do domínio e medo). Este é o arquétipo do Estado como entidade sagrada do controle.
A Besta da política moderna não veste chifres nem ruge do alto de tronos sombrios. Ela opera em silêncio, por meio de estruturas institucionais, algoritmos burocráticos, leis abstratas e discursos de eficiência. Seu corpo não é de carne, mas de engrenagens: ela se constrói nos gabinetes, nas corporações, nos departamentos de administração pública e nas doutrinas de governabilidade.
“E vi subir do mar uma besta… e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande autoridade.” (Apocalipse treze de um a dois)


A Besta emerge das águas do inconsciente coletivo, alimentada por estruturas de dominação e medo. Seu trono é o sistema, e seu corpo, o aparato político global.
Na tradição materialista-política, especialmente a partir de Thomas Hobbes, o Estado é descrito como uma construção necessária para conter a natureza violenta do ser humano. O Leviatã, criatura que dá nome à sua obra mais famosa, é o nome da entidade política absoluta que, ao absorver a vontade de todos, produz paz pela suspensão da liberdade.
“E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?”
A resignação política assume contornos de culto. O povo aceita a Besta não por convicção, mas por exaustão e medo.
Com a consolidação do Estado moderno, como destaca Joachim Hirsch em sua Teoria Materialista do Estado, o aparato estatal torna-se o gestor da crise permanente do capitalismo. Ele administra não apenas a produção material, mas também a subjetividade social. Por isso, o Estado é ao mesmo tempo campo de regulação e de reprodução ideológica. Ele define o “normal”, o “legítimo”, o “possível”.
“E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los…”
A Besta trava uma guerra simbólica contra os santos — os despertos, os que vivem segundo a consciência crística — e os vence através da normatização.
Essa é a nova face da Besta: um Estado açucarado por promessas de liberdade, mas que atua como gestor de algoritmos de controle, de regulações opacas, de vigilâncias constantes.
“E faz que a todos… seja posto um sinal na mão direita ou na testa…”
A mente e as ações são marcadas. A liberdade se torna obediência ao protocolo. Pensar fora do sistema é perder o direito de existir dentro dele.
A Politização do Ego: Quando a Alma é Vendida com o Nome de Deus
Mais perverso ainda é quando esse movimento é justificado “em nome de Deus”. Quando a linguagem do Cristo é apropriada para validar a ambição do ego.
“Vi uma mulher assentada sobre uma besta escarlate… vestida de púrpura e escarlate, e adornada com ouro…”
A religião seduzida pelo poder político. A espiritualidade pervertida pela ambição. Um culto travestido de fé.
“Estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus…”
Quando a religião institucionalizada serve à Besta, ela se embriaga da destruição simbólica da verdadeira espiritualidade.
Cristo nunca buscou o poder. Quando as multidões queriam fazê-lo rei, Ele se retirava (João 6:15). Quando Pilatos o confrontou, Ele respondeu: “O meu Reino não é deste mundo” (João dezoito trinta e seis). Cristo não pediu exércitos, pediu que amássemos nossos inimigos. Não exigiu votos, mas entrega.
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei…”
A resistência é interior. Cristo não invade o templo do coração. Ele convida. Ele espera ser reconhecido na intimidade.
A alma livre não precisa de poder. O ser desperto não deseja dominar. O verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que, mesmo no centro da praça pública, mantém-se no templo interior.
“E vi o Cordeiro sobre o monte Sião… com ele os que tinham na testa o nome do Pai.”
O selo da Consciência não é o da ideologia, mas do Nome — da vibração essencial. Os despertos carregam a marca da luz, não do controle.
“E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.”
A promessa é regeneração. A consciência liberta do domínio da Besta, restaurada à sua origem divina.
Conclusão…
A história arquetípica da rebelião de Lúcifer não é apenas um mito de queda celestial, mas um espelho simbólico de um drama interior e civilizacional: o desejo de dominar versus o chamado para servir.
Segundo a tradição cristã, Lúcifer, cujo nome significa “portador da luz”, foi um anjo de grande esplendor que caiu por desejar elevar seu trono acima das estrelas de Deus:
“Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono… subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.” (Isaías quatorze, de treze a quatorze)
Seu pecado não foi a ignorância, mas a soberba. Não foi a fraqueza, mas a ambição. Ele queria governar, ser adorado, centralizar a glória. A queda de Lúcifer é a primeira história sobre a distorção do poder.
Cristo, por outro lado, não reivindicou tronos, mas toalhas. Não buscou adoração, mas doou-se até o fim. Ele mesmo disse:
“Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Marcos dez quarenta e cinco)
A diferença é abismal: Lúcifer desejou subir; Cristo desceu. Lúcifer quis o trono; Cristo aceitou a cruz. Lúcifer quis ser como Deus; Cristo, sendo Deus, esvaziou-se a si mesmo:
“…esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo… humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses dois de sete a oito)
Essa oposição permanece viva. Toda vez que buscamos controlar, dominar, manipular ou vencer pela força, ecoamos a escolha de Lúcifer. Toda vez que servimos em silêncio, amamos sem retorno, perdoamos sem condição, encarnamos o Cristo.
Cristo não veio estabelecer um império humano, mas um Reino interior. Não enviou legiões de anjos contra Roma, mas ajoelhou-se para lavar pés sujos. No Getsêmane, não invocou fogo do céu, mas chorou: “Não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas vinte e dois quarenta e dois).
Enquanto o mundo celebra quem sobe, o Evangelho celebra quem desce.
Autor: Paulo Fernandes


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